O Que a Estrada me Ensinou – Introdução

por Eduardo Lemos 2 comentários

Viajar de bicicleta é uma experiência tremendamente fantástica capaz de marcar uma vida por toda ela. É diferente e não dá para dizer que seja a mesma coisa ou algo parecido a uma viagem de moto, carro ou avião. Entenda que não estou dizendo que viajar de bicicleta seja a melhor forma de sair por aí, pois, emoção é um sentimento muito pessoal.

Fazer uma cicloviagem tem suas particularidades e são elas que fazem a coisa ficar mágica. Com a bicicleta você vai mais devagar que um carro ou moto, porém, transita um pouco mais veloz se estivesse caminhando. É este meio termo que nos permite agregar um pouco do que cada jeitinho de viajar tem de melhor, transformando a experiência de uma cicloviagem em algo encantador. Você pode se deslocar de cidade a outra no mesmo dia, sentir o vento no rosto, escutar o cantar dos pássaros, encontrar cachoeiras escondidas pelo som de suas quedas d’água na mata, parar em qualquer lugar, fazer novas amizades, aprender novos costumes e ao final de tarde ainda se deliciar com a prazerosa sensação de ter vencido, com seu próprio esforço, estradas sob as mais diversas condições de clima e relevo.

O cicloturismo é democrático, não há separação entre ricos e pobres. Qualquer um pode viajar de bicicleta, desde que tenha uma em mãos. E não precisa ser nenhuma bicicleta de outro mundo, basta ter duas rodas, pedal e um par de freios, para brecar a sua vontade incessante de sair voando por aí.

Eu quando comecei a viajar de bicicleta –  e não faz tanto tempo assim – nem sabia que existia um nome próprio para isso. Fui saber o que era cicloturismo muito tempo depois quando já tinha acumulado um pouco mais de experiência. A minha primeira viagem, que aconteceu na companhia de um amigo, foi uma verdadeira catástrofe. Um aula dramática de tudo o que não se deve fazer em uma cicloviagem. Sem dinheiro, dias contadíssimos, preparação física nula, alimentação porca, ausência de equipamentos, adaptações inseguras, bicicleta mal ajustada dentre outras coisas que fizeram desta viagem uma ótima escola. O aprendizado foi tão intenso e marcante que eu me senti no céu quando saí para viajar pela segunda vez.

Eu me lembro muito bem como foi que caí, oficialmente, neste mundo das viagens de bicicleta. Nasci e fui criado em um pequena cidade do sul de Minas Gerais chamada Alfenas. A cidade banhada pelo lago de Furnas é mais uma destas do interior em que a religiosidade da população é bastante visível. Cresci ouvindo histórias de peregrinos que viajavam a pé, à cavalo ou de bicicleta até a cidade de Aparecida no estado de São Paulo, lugar onde está instalado a segunda maior basílica do mundo depois das edificações de São Pedro, no Vaticano. Esta convivência com pessoas que viajavam de bicicleta acabou me deixando habituado com ideia. Anos mais tarde lá estava eu fazendo também o caminho sul mineiro da fé.

Mas como eu já disse, a minha primeira viagem oficial de bicicleta foi um fracasso que deu certo. O sucesso só aconteceu porque a vontade de chegar ao destino ainda era maior do que a desistir.

Da primeira viagem eu aprendi boa parte do pouco que hoje sei sobre cicloviagens e que na época não tinha muito a quem perguntar. Tinha muitas dúvidas e não sabia por onde começar. Por fim peguei algumas informações superficiais sobre rotas e um bocado sobre alimentação e fiquei por aí.

Durante a viagem ao descer a serra da Mantiqueira quase tivemos um acidente grave quando o bagageiro traseiro da bicicleta do amigo Paulo não suportou a adaptação que ele fez e caiu sobre a roda. Só fui saber o que aconteceu minutos depois do incidente quando eu, visivelmente preocupado, o vi surgir no final da ultima curva da montanha. O bagageiro cedeu enquanto ele passava por um túnel e só foi possível continuar viagem porque ele usou o cadarço de seu tênis para improvisar um novo apoio de bagageiro. Claramente aquela não era a melhor das soluções, mas a engenhosidade arcaica da ideia permitiu que chegássemos aonde queríamos.

As perguntas que atormentavam há quase 10 anos, vejo que hoje ainda continuam sendo as mesmas entre aqueles que estão iniciando no mundo das cicloviagens.  Em geral as dúvidas estão divididas em categorias e suas ramificações. No setor de bicicletas temos as dúvidas referentes a bagageiros, alforjes, acessórios, freios, pneus, tamanhos de quadro, selim e suspensão. Na área de logística e transporte repousam questionamentos como perigos nas estradas, medidas de segurança, o que levar na bagagem, peso, sinalização e etcétera. Em alimentação temos assuntos como fogareiros, comidas práticas, vitaminas e hidratação. Temos também as dúvidas frequentes sobre hospedagem como onde ficar, acampamento, viajar em grupo ou sozinho, higiene pessoal e assim vai. As dúvidas não acabam e as respostas são infinitas.

Após alguns anos quebrando a cabeça a aprendendo um pouco mais a cada dia o ofício de ser um aventureiro, criei manias e modelos de como fazer uma cicloviagem de maneira confortável, segura, prazerosa e econômica. Certamente o leitor haverá encontrar por aí outras tantas opiniões, e algumas até divergentes, baseadas nas experiências de estrada de outros colegas e amigos. Que seja assim, sempre. Algo só pode ser integral quando há a união das partes. Talvez você se veja confortável ao tomar os meus relatos como modelo para suas aventuras; talvez poucas coisas do que falei vão lhe ser úteis; talvez a utilidade deste texto seja apenas para você ter a certeza de que não é por estes caminhos que você traçará os seus.

Assim pretendo compartilhar minhas vivências e aprendizados neste mundo das viagens de bicicleta, dando início a uma coleção de artigos batizados com o título: O Que a Estrada me Ensinou.

Este é o capítulo de introdução.
Bons ventos e ótimas aventuras.

2 comentários
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2 comentários

Felipe Teixeira Ribeiro outubro 26, 2016 em 1:31 am

Meu amigo Eduardo. Li só a introdução e já me deu uma vontade danada de pegar a estrada de novo. Falo sempre para quem me pergunta se sou maluco de viajar de bicicleta: fiz de cada quilômetro pedalado minhas sessões diárias de terapia, sendo que algumas sessões duraram 12, 13, 14 horas…

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Eduardo Lemos
Eduardo Lemos outubro 26, 2016 em 12:01 pm

Aoh Felipe, eu quase não consegui finalizar o site justamente porque toda vez que me lembrava das viagens que fiz, também me batia esta vontade maluca de sair pedalando por aí, rs. Este sentimento não acaba nunca! Obrigado por dedicar um pouco do seu tempo para fazer a leitura deste texto. 🙂

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