O lugar que criou o seu próprio mar

por Eduardo Lemos 8 comentários

Todo fim tem um começo.
O coração bate acelerado. Os olhos se abrem e o sono se vai. São duas horas da manhã e o estômago dá sinais de que a noite será muito breve. Aos meus pés, deitado sobre um velho colchão jogado sobre o chão dorme, tranquilamente, Joaquim, cachorrinho de nome humano que só não se comporta como tal por falta de oportunidade. Dois seres, dois sentimentos diferentes sob o mesmo teto. Da inquietude intensa à calmaria mórbida. Volto a dormir. As quatro horas da manhã me desperto novamente do que passei a chamar de cochilo à prestação. No quarto ao lado ouço o interruptor de luz ser acionado. Celso, primo e parceiro de expedição, também está se pondo de pé. Aos poucos a casa vai se tornando ruidosa. Na cozinha, dona Flávia, minha mãe, prepara o café. Comida boa ingerida às pressas cumprindo apenas seu papel trivial de nutrir um corpo que, por ora, não despertava qualquer sinal de fome. Na rua um papo rápido sobre a expedição antecedeu as saudações de boa viagem. Meu irmão iria nos levar até a casa do primo onde estavam armazenados os caiaques e de lá até o ponto de partida. Foi preciso fazer esta manobra, pois a garagem da casa de minha mãe é muito pequena, quase não cabe um carro popular. Assim seguimos caminho até alcançar um dos braços da represa que banha a cidade de Alfenas. No rádio o som da viola de Almir Sater tentava trazer um pouco de tranquilidade ao ambiente. Funcionou relativamente bem até que as cordas foram desamarradas da carroceria da caminhonete para liberar os barcos. Alguns carros se aproximavam. Motocicletas também. Quem está a pé foi deixado ali de carona. Não, engana-se quem agora imagina que aquele pequeno público havia chegado ali apenas para nos ver partir. Da outra margem da represa a balsa vem se aproximando. Todos, cada um em seu ofício, aguardavam a chegada da embarcação para cruzar as águas em mais um dia de trabalho. A balsa parte quando os caiaques são levados a água. Cuidado redobrado com a quilha e o fundo do rio. A peça, que lembra a barbatana de um tubarão de cabeça para baixo, foi construída em pulso próprio. Era essencial para manter a estabilidade do barco e evitar a perda de rumo por atuação do vento. Não podia amassar. Quebrar, nem pensar.  A proa, ou o bico do barco como queiram chamar, raspava seu fundo no barro vermelho e pegajoso dando o tom da saída. Aos poucos a distância foi deixando pequeno quem por culpa de um relógio preguiçoso perdeu a primeira balsa do dia.

O primeiro almoço da expedição.

O remo batia no casco constantemente deixando evidente a nossa falta de preparo. Aos poucos o corpo foi entrando em seu estado de relaxamento e as dores que se escondiam nos efeitos da adrenalina foram incomodando músculos e articulações. A noite fraca de sono cobrou o seu preço. Pontualmente, ao meio dia, paramos para almoçar. Em meio a tantas encostas de barro e vegetação de enrosco surgiu uma pequena praia de pedras brancas e água cristalina. Os barcos foram atracados lado a lado numa pequenina árvore que brotava por dentro d’água. Na panela o macarrão pedia o molho e o queijo parmesão fresco foi desenrolado do papel. Algumas poucas nuvens no céu fez o agrado de tapar a luz do sol por alguns minutos. Tempo contado para finalizar o almoço e lavar as panelas. Nada mais que isso. Ainda tentei capturar algumas cenas em vídeo, mas a câmera logo no primeiro dia pediu arrego e começou a falhar. Entrou para o fundo do saco estanque e por lá ficou até o fim da expedição. O relógio marcava o início do turno da tarde. Haviam metas bem apertadas para o dia. O vento, que por algumas horas era quase imperceptível, agora sopra desfavoravelmente forte. Pedimos clemência e fomos atendidos. Quem não entendeu muito bem o pedido foi o sol. Saiu por entre as nuvens para castigar. O remo, feito em liga leve de alumínio, por sensação do cansaço o fez parecer ser feito de aço e concreto. A tarde foi sendo superada lentamente em ritmo constante e com um bom espaço de tempo para divagar sobre a vida e as banalidades do cotidiano. Às dezessete horas o GPS evidenciou o último ponto do dia, uma pequenina casa impressa em seu visor. A casinha, símbolo de aconchego, foi escolhida para trazer boas energias no momento em que a exaustão se torna evidente. O celular escondido no porta-trecos na frente do barco saiu para cumprir a sua nobre tarefa de ser apenas um rádio. A luz do dia estava prestes a ir embora quando os caiaques começaram a sair da água. Os braços estavam pesados, os dedos dormentes e as nádegas sofriam pela carência de almofadas naturais. Trinta e nove quilômetros e oito horas de remada finalizadas com um banho quente, comida caseira, um copo de cerveja gelada e um comprimido de relaxante muscular. Fim de jogo.

No mato sem cachorro, sem vaca e sem luz.
A água amanheceu em absoluta calmaria. Sobre ela era possível ver o céu, os reflexos da neblina adiante e o próprio rosto de quem ainda não havia vencido o sono. Tudo estava em domínio do silêncio. Nem mesmo as galinhas das terras vizinhas tiveram o atrevimento de cantar. Ouvia-se apenas o som das pás do remo tocando a água. Nesta paz seguimos toda a parte da manhã com poucas paradas. As que existiram foram para beliscar uma barra de cereal ou um doce de banana cristalizada. Não fizemos muitos registros fotográficos naquele período, o que de certo modo foi um baita alívio, pois me poupou de ser perpetuado em uma cena vergonhosa quando, ao avistar uma árvore sob a água, resolvi passar sobre os seus galhos e acabei enroscando a quilha do barco em um deles. O sol estava próximo de alcançar seu momento à pino quando cruzamos a primeira das duas pontes da expedição. Torta, como é conhecida a ponte na região, recebe este nome porque de fato não é reta. Faz curvas como fazem as águas que contornam suas pilastras. Uma verdadeira obra anti-embriagados.

Atracamos para almoço. Panelas expostas sobre um belo palanque às margens de uma grande fazenda. Barris metálicos flutuando sem ferrugem, pneus protegendo os barcos que por ali encostam e madeiras com pintura nova em tinta branca. Ao longe era possível avistar cavalos se banhando no rio. Cena de novela, só faltava o drama. E ele veio, do curral com chapéu na cabeça e passos largos. O caseiro – atribuo a sua profissão por fatalmente não me lembrar de seu nome – veio nos informar que o proprietário da fazenda era um pouco avesso a presença de estranhos em sua propriedade. Entendendo que nossa permanência era mínima, apenas para cozinhar o almoço, conseguimos negociar uma trégua breve. Não deu nem tempo do caseiro retornar a parte alta da fazenda quando sou pego de surpresa com Celso de sunga pulando dentro da água. Não sabia onde escondia minha cara de vergonha. Tratei logo de agilizar o almoço.

A tarde começou quando entramos num longo vale de serras íngremes e altas. Área profunda de altimetria submersa irregular e margens com larguras bem diferentes por curto espaço em distância. Neste trecho havia também entradas de água vindo de cachoeiras escondidas e ilhotas no meio do rio. Combinações perfeitas para gerar correntes circulares e contrárias a nossa navegação. Neste dia iríamos acampar e estávamos preocupados com o deslocamento abaixo da média, pois logo o sol iria se pôr e ainda tínhamos alguns bons quilômetros pela frente até o ponto marcado como favorável a nossa pernoite. Por ali, onde estávamos, era quase impossível montar acampamento. Quando o relógio marcou cinco horas da tarde e alguns minutos eu entrei num afunilamento contínuo do rio. Neste momento, sem obstáculos e vindo de um alagamento denso, o rio passou a correr rápido e a correnteza favorável me levou a espantosa marca de vinte quilômetros por hora num percurso que durou aproximadamente vinte minutos. Quatro vezes mais rápido do que a  nossa média. Quando, por fim, a represa se abriu novamente, o sorriso voltou ao rosto. Ainda que estivesse longe da meta do dia me senti aliviado por enxergar alguns pontos, a curta distância, favoráveis ao acampamento. Mais uma vez atracamos com o dia próximo ao fim. A noite tomou os céus completamente quando a última vareta de sustentação da barraca foi fincada ao chão.

Galhos e folhagens úmidas recolhidos para serem combustíveis de uma fogueira nos custou um-quarto da caixa de fósforos.  A minha lanterna de cabeça falhou e a de mão, inexplicavalmente, seguiu seu  parente de testa e resolveu ficar no escuro. O jantar foi preparado sob a luz da fogueira com participação especial e esporádica da lanterna do Celso que ainda funcionava. O macarrão do dia ficou sem sal e o molho apenas coloriu a comida indigesta. A barriga cobrou mais tarde.

A fogueira que consumiu meia caixa de fósforos.

Guiado pela luz da lua e munido de uma pequena pá retrátil e um rolo de papel higiênico novinho, fui fazer minha contribuição orgânica a natureza. Meia noite acordo com a voz do Celso me chamando na barraca ao lado. Estávamos dormindo muito mal. Mais tarde descobri que o primo tentou me chamar por três vezes ao ouvir um barulho  próximo. Na última vez reforçou os decibéis, pois visualizou na sua imaginação fértil e aceitável ao momento uma cena dramática onde eu havia sido amordaçado e levado embora. Nesta lógica não havia dúvidas de que ele seria o próximo.

Volto a dormir. Poucos minutos depois me desperto assustado. Alguém andava ao redor. Talvez sejam apenas vacas. Vi que haviam pegadas quando mais cedo fui até as margens buscar água. Adormeci com a faca sem corte no peito e a lanterna inconsistente nas mãos. Coração dispara novamente. Ouço ruídos de uma canoa navegando pelas margens. Farto da impossibilidade de dormir, troco o medo pela falta de paciência. Abri a barraca, liguei a lanterna e não vi nada. Ninguém remando e nenhuma vaquinha me olhando. Logo entendi que o barulho ao redor do acampamento era gerado pelo atrito do sobreteto da barraca sobre seu quarto, reflexo do vento que chegou durante a madrugada. A mesma massa de ar criou as marolas na água que vinham a se estourar próximo a gente. Não havia ninguém e nenhum barco por perto. Tudo era fruto da imaginação. Os pés gelados pediram um par de meias dentro do saco de dormir. Não deu nem tempo de esquentá-los. O despertador tocou e a dívida com o sono aumentou mais uma vez. Iniciamos a árdua tarefa de desmontar o acampamento em meio a um cenário de ausência de luz, frio, vento cortante e equipamentos molhados por condensação.

Telefones modernos também fazem ligações.
As seis da manhã a proa toca a água mais uma vez. Às dez horas entramos em um trecho muito longo. Era a maior pernada de toda a viagem. Vento com intensidade e direção constantes anunciavam a criação de ondas. Uma hora depois a ciência provou sua teoria. Os caiaques saltavam as marolas em remadas de pura diversão. Alegria de uma novidade que tão logo foi substituída por momentos de monotonia. Sem progresso significativo em quilometragem por conta das condições adversas atracamos para almoço no horário correto, porém em local antecipado. Mas desta vez o tempo ruim foi lucrativo. Encontramos um pedacinho de terra belíssimo para almoçar. Brisa fresca, calor suave do sol, terra parcialmente arenosa e plana. Devorei a comida em segundos para garantir um tempinho de soneca ao ar livre. Deitado sobre um pedaço de lona estendida sobre o chão batido adormeci, ao som massageante das ondas se arrebentando alguns metros dali. Acordei feliz, porém preguiçoso. As remadas durante a tarde foram puramente inerciais. Talvez fosse um saco de batatas sobre o caiaque à deriva mais empolgante de ser visto por alguém em solo do que eu remando naquele momento. A única ação energética veio quando, acidentalmente, cocei os olhos ainda com protetor solar espalhado sobre as mãos. Agradeça-me, quem, assim como eu, ainda desconhecia o resultado desagradável desta combinação.

Dobrando a lona depois de uma boa sesta.

Minutos depois fizemos uma última parada. Verifiquei o GPS e percebi que já havíamos entrado no raio de visibilidade de nossa hospedagem. Em tese era para ser uma identificação fácil, o que não foi. Outras tantas edificações completava uma vizinhança bem heterogênea. Não queríamos gastar o que ainda nos restava de energia em tentativas falhas. Indecisos, assim ficamos sem reação equidistantemente longes de qualquer margem da represa.

– Liga logo lá, Du! Gritou Celso, impaciente.

Claro! O costume desta era digital na qual caracteres são mais expressivos do que vozes acabou por ofuscar o óbvio do uso básico de um celular; fazer e receber ligações telefônicas. A primeira tentativa de ligação falhou, a segunda completou a chamada, porém sem retorno de áudio e a terceira descobrimos que o dono da pousada não havia se lembrado de anotar nossa reserva.

Poderíamos estar ali diante de um problemão, mas o universo se mostrou mais um vez favorável a nós. O tempo que levamos para remar até as margens da pousada, o que não passou de cinco minutos, foi suficiente para que nossas acomodações fossem totalmente preparadas. Descobrimos, mais tarde, que éramos os únicos hóspedes naquele dia. Reinaldo, dono da pousada, desceu com sua caminhonete para nos ajudar a rebocar os caiaques. Estava um pouco complicado encaixá-los na carroceria então optamos por manter a tampa traseira aberta, enquanto, caminhando atrás, fazíamos apoio para que os caiaques não escorregassem. Não poderíamos ter tido uma idéia pior. O carro, por mais devagar que fosse seu deslocamento, ainda assim era mais rápido que dois sujeitos exaustos subindo uma colina. Tentando acompanhar o ritmo, Celso esqueceu sua sapatilha no caiaque e acabou pisando em um espinho. Virou uma bagunça só. Quando finalmente alcançamos o topo do morro, o corpo já estava muito próximo de pedir um par velas, duas caixas de madeira e um padre para a extrema-unção. Para piorar – ainda hoje não sei o motivo – disparamos a rir incontrolavelmente e o pouco de ar que ainda restava nos pulmões foi embora. Recomposto do esforço e riso, subi para o quarto e enquanto Celso foi assistir o segundo tempo do jogo da Argentina pela Copa do Mundo.

Após o banho desci para tomar uma cerveja. Mais tarde acompanhamos Reinaldo e sua esposa até a cidade para comer algo. Jantamos muito bem e pagamos pouco. Na hora de me levantar da cadeira para ir embora senti uma fisgada forte na parte posterior da coxa. O assento rígido do caiaque andava pressionando o nervo ciático da minha perna esquerda. Era uma questão de tempo para a dor surgir. Preocupado com o restante da viagem improvisei uma pequena almofada preenchendo um saco estanque sem uso com minha toalha de banho. Antes de ir pra cama conversei com Celso e decidimos mudar o roteiro do próximo dia. Íamos visitar os cânions da represa sem levar nossas bagagens e retornaríamos a pousada no final da tarde. Esta alteração reduziria em quinze quilômetros o curso da viagem sem excluir nenhum trecho importante. Durante a madrugada acordei sentindo fortes dores no pulso direito. Usei uma pomada tópica anti inflamatória pela primeira vez e ingeri um relaxante muscular. Consegui dormir novamente.

O frio que espante gente é melhor pra gente.
O dia amanheceu com o clima bom e a represa bem tranquila. Calmaria até bastante previsível. Era uma sexta-feira de baixa temporada e naquele dia a seleção brasileira de futebol estava para entrar em campo para disputar um jogo oficial pela Copa do Mundo. O radinho de pilhas que peguei emprestado com meu irmão seguia amarrado no colete salva-vidas e lutava para sintonizar a emissora esportiva. Nada de gol no primeiro tempo e quando ele veio no segundo tempo o rádio não tinha mais nenhuma sintonia. Os paredões imensos que formavam os cânions impediam que o sinal VHF chegasse até nós. De repente percebemos uma agitação na água no último estreitamento dos cânions. Mais adiante chegaríamos na piscina principal da cachoeira da cascatinha. Os caiaques pararam de avançar. Foi então que percebemos que a água que descia da cachoeira estava criando uma corrente contrária ao nosso movimento, bem intensificada por decorrência do afunilamento dos paredões. Celso fez uma primeira tentativa para transpor a correnteza, mas teve seu caiaque jogado para trás. Na segunda tentativa ele encontrou uma brecha na água e avançou. Fiz o mesmo na sequência.

Lado a lado na cachoeira da cascatinha.

Entrávamos no vale da cachoeira da Cascatinha. Eu, Celso e, à espera, um pequeno tamanduá mirim escondido entre as pedras. Ninguém mais por lá. Um momento raro de isolamento. Nestas épocas escassas de baixo volume d’água só se chega onde chegamos quem tem que barco de calado raso. O sentimento de gratidão aflorou na pele. Cada ponta de dor que senti nos ombros e todas as outras que ainda estavam por vir valeram a pena.

Da cachoeira da cascatinha migramos para os cânions ao lado. A queda d’água por lá tocava um ponto mais profundo do rio, o que nos permitiu passar com o caiaque por debaixo dela. Desta vez tomei a frente e quase me arrependi de frio. A água bateu forte na nuca e desceu pelas costas. O diafragma, contraído igual tatu bola, quase não deixava o ar entrar pelos pulmões. Aquele banho marcava oficialmente a reta final da expedição.

O almoço foi improvisado sobre um bar flutuante desativado. Risoto de legumes e ovos mexidos. Águas paradas, vento ausente e tempo nublado ditaram nosso retorno preguiçoso durante a tarde. A noite fomos agraciados por um jantar estupendo na pousada com direito a salada completa, batata frita, couve refogada, ovos, arroz e feijão preparados na hora. O sono foi inevitável e a cama a melhor companhia do mundo.

Tem horas que a vida assusta a gente.
A luz do sol entrando por entre as copas das árvores coloriu o nosso café da manhã. Mais uma vez a proa arranca em sua marcha ré. O dia iniciou com ventos dando sinais de que íamos encontrar boas marolas pela frente. Boas mesmo. Próximo às onze horas da manhã espichei meu corpo sobre o caiaque e coloquei os pés dentro da água. O movimento das ondas em sobe e desce e o balanço lateral do barco quase me fizeram dormir. Naqueles minutos que seguiram só consiguia pensar na vida boa que estávamos tendo até ali.

O surgimento de barcos motorizados indicava a proximidade de áreas urbanas. “Fuuuuuuuuuuuhhhhh” – o apito plástico, brinde de um posto de gasolina, falhou quando tentei sinalizar a minha presença na rota de uma lancha. Passou próximo. O caiaque balançou como um boneco João Bobo. Os ponteiros do relógio não apontavam meio dia quando atracamos em um novo pier. Do alto do morro fomos avistados por um homem de chapéu, que veio até nós. Uma recepção calorosa de um alguém que há semanas não recebia um hóspede em sua pousada. Reflexo de uma região turisticamente sazonal. Para brindar a conquista do quinto dia de viagem abrimos todos uma cerveja. O universo então nos apresentou aquela que seria a maior surpresa de toda a expedição. Rogério, o homem do chapéu, era irmão de Rodrigo, melhor amigo do meu irmão Guto. Rodrigo faleceu jovem, vítima de um câncer. De repente, aquela relação comercial entre hóspede e proprietário passa a não existir mais. Surge, em meio a um abraço caloroso, um novo amigo, fruto de uma bela história de amizade entre nossos irmãos. A noite acabou literalmente em pizza e eu comendo apenas as bordas, pois o garçom que fez o pedido confundiu o sabor vegetariano com a tradicional pizza portuguesa. Até breve, assim nos despedimos para enfrentar o penúltimo dia de viagem.

O jejum pode até ser uma boa opção.
A medicina ainda não catalogou o que passei a chamar de síndrome do xixi condicionado. Doença imaginária e contagiosa que passou a domar nossas bexigas de maneira surpreendente. A cada bico de terra que avistávamos ao longe os rins entravam em trabalho de parto e nos obrigava a buscar uma margem para atracar. Esta vontade incontrolada acabou nos rendendo alguns espinhos no pé e um ataque vagabundo de sanguessugas famintos. Nosso último almoço oficial da expedição estava um tanto quanto sem graça. Piorou. Descemos dos caiaques às margens do rio para darmos início aos trabalhos de cozinha quando avistamos na encosta de um barranco próximo um pobre cavalo falecido. Ao seu lado, uma família generosa de urubus.

A comida indigesta da ilha das capivaras.

Partimos com fome, afinal, aquele restaurante estava muito mal frequentado. De repente uma antena de telefonia móvel brota no meio do lago. Embaixo dela uma ilhota de pedras com vegetação rasteira e barro transitável. Logo, percebe-se o cheiro das marcações territoriais feitas por capivaras que vivem naquela região. A casa era delas e invadir propriedade privada é crime, mas pra fazer um almoço breve a gente estava disposto a burlar a lei. Mesmo porque não havia nenhum morador peludo por lá naquele momento.  A preguiça pediu um macarrão instantâneo e ovos cozidos. Escolha falha, muito indigesta. Talvez não fosse pelo sabor, mas por nosso estado de espírito enfraquecido. O dia monocromático encoberto por nuvens cinzas só foi nos trazer boas vibrações no final da tarde.

O sol finalmente tomou seu lugar em cena e a nossa chegada na última hospedagem foi tão calorosa quanto o seu brilho. Filhos, sobrinhos e mãe em um gesto de união belíssimo vieram nos ajudar a subir as tralhas e armazenar os caiaques para noite. Minutos depois um jantar farto com direto a escolha de cardápio e horário para serví-lo apagou totalmente as memórias deploráveis de um almoço nada gastronômico.

A última das duas pontes.
As seis horas da manhã o relógio se pôs de pé e roubou nosso sono. Roubar, este é o verbo correto, contrário ao ato de furtar, que é tomar algo sem que haja violência. E isso o despertador não fez. Último dia de expedição. Não havia pressa em nada, ou em quase nada. A síndrome do xixi condicionado ainda estava presente, firme e forte como sempre. Algumas remadas vagarosas e o contorno de um monumento sobre a água. Erguido sobre pedras do que era no passado uma igreja antes da barragem de Furnas inundar boa parte da região, havia um pedestal apoiando a imagem de São Francisco de Assis. Conta a história local, e por esta não saberia dizer se é uma lenda, que um padre muito influente sobre seus fiéis na época da pré-inundação convenceu parte da população a não abandonar a antiga cidade de Guapé. O protesto, sabe-se hoje não ter funcionado, levou algumas vidas embora deixando para trás apenas histórias e um marco de onde era a antiga igreja da cidade. Pouco antes do meio dia fizemos uma parada. A poucos quilômetros de onde estávamos já era possível avistar a segunda e última ponte a ser transpassada na viagem. Atrás dela, escondido num pedacinho de terra abençoado, estava o distrito de Santo Hilário. O destino ainda nos guardava uma bela surpresa. Os olhos marejados por um sentimento profundo de felicidade, ainda foram capazes de observar, numa articulação espantosa do universo, o meu irmão Guto e o sogro José cruzarem a ponte sobre nós. Coincidência, não. O resgate estava programado. O que não estava previsto era este encontro antecipado. A proa toca pela última vez às margens da terra vermelha de tom urucum. Após sete dias, quarenta e duas horas de remadas e quase duzentos quilômetros percorridos, chegamos onde queríamos chegar. O destino é a certeza de que somos todos capazes.

Reunião final na cidade de Santo Hilário – MG. Da esquerda para direita: Eu, Guto, José e Celso.

 


ONDE NOS HOSPEDAMOS
Aqui vale a pena mencionar com muito gosto todas as pousadas que passamos. Todas elas, sem exceção, nos recebeu muitíssimo bem.  Recomendamos fortemente.
Itaci – MG | Pousada Refúgio das Estrelas
São José da Barra – MG | Pousada Marina do Farol
Capitólio – MG | Pousada Pontal do Paraíso
Guapé – MG | Pousada Saracura


 

8 comentários
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8 comentários

Mônica setembro 13, 2018 em 4:42 pm

Que texto maravilhoso! Rico em históricas e belas paisagens! Parabéns!

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Eduardo Lemos
Eduardo Lemos setembro 14, 2018 em 2:28 pm

Obrigado, Monikeka! <3

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Ana setembro 18, 2018 em 2:05 am

Texto lindo,paisagens maravilhosas! Parabéns e sucesso !

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Eduardo Lemos
Eduardo Lemos setembro 18, 2018 em 7:21 pm

Muito obrigado, Ana! Grande abraço pra ti.

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Maria Deide setembro 26, 2018 em 8:58 am

Acabei de ler, maravilhoso, que aventura, que beleza de expedição! E a narrativa da história de navegação, se e que podemos dizer assim. Parabéns pela bravura e pela escrita!

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Eduardo Lemos
Eduardo Lemos outubro 1, 2018 em 7:45 pm

Oi Maria, muitíssimo obrigado pelas palavras de carinho e apoio. Fico feliz que tenha gostado da leitura. Um grande abraço pra você.

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Feitoza outubro 20, 2018 em 5:48 pm

Maravilha de relato!! Parabéns !! Vou querer mais dicas . Estamos planejando Capitólio ainda este ano!!

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Eduardo Lemos
Eduardo Lemos outubro 22, 2018 em 1:23 pm

Fala Feitoza! Obrigado pelo elogio. Estou a disposição para compartilhar qualquer dica que possa ser útil a sua viagem a Capitólio este ano. Vai de caiaque ocêanico? rs Grande abraço.

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